Cranela ›› Blog por Gabriela Cadamuro

UMA MISTURA DE CRAVO E CANELA

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Decidi arrumar minhas bagunças, organizar o desorganizado. Começaria pelo meu quarto, depois iria ao meu coração e enfim chegaria em minha cabeça […] Decidi jogar fora tudo que me fazia lembrar de coisas indesejáveis, cd’s de bandas, isso já estava meio retrô, roupas que eu não gostava mais, doei, com os sapatos fiz o mesmo, só restaram tênis que eu era apegada. Os livros da escola não me serviam mais, os doei também. Joguei fora todas as fotos antigas de pessoas que não estavam presentes em minha vida, de pessoas que eu não queria que estivesse em minhas lembranças, mas estavam, no entanto, quando chegasse a hora da limpeza em minha cabeça, com certeza elas iriam desaparecer de lá. Aparentemente a bagunça em que meu quarto se encontrava, já havia sumido, então parti para meu coração e minha cabeça. Talvez seria mais fácil de limpa-los juntos. Deitei em minha cama e coloquei meus fones de ouvido, precisava que o mundo desaparecesse para poder desfazer a minha bagunça. Respirei. Engoli meu choro, e comecei a pensar no que deveria deixar de lado. Lembranças de um passado feliz vieram a minha cabeça. Era uma das lembranças mais lindas que tinha, mas nada das lembranças havia continuado em minha vida, e elas então foram excluídas de minha cabeça e coração. Velhas paixões, foram esquecidas, as queimei e elas queimaram facilmente. Pra minha sorte […] Meu pequeno imperfeito veio a minha mente, não sabia se o excluía, se o queimava, se o deletava, ele ainda estava presente na minha vida, em mim…O deixei. Mais para frente faria outra limpeza e se ele não estivesse comigo, seria deletado. Coisas boas tiveram de ser deletadas, excluídas, para meu bem. Meu coração chorou, gritou, mas minha razão sabia que assim seria melhor, por mais que doesse ficar sem certas coisas que nos machucam, seria melhor do que ficar com elas, mesmo sendo boas e continuarem a machucar. Essas tais lembranças eram a forma perfeita de uma rosa com espinhos. Lindas e me faziam felizes, mas havia espinhos nelas, e eles a fizeram perder todo seu encanto. Talvez tivesse de ser melhor assim […] Abri meus olhos e vi o nada a minha frente. A partir daquele momento, começaria algo novo, com algumas coisas velhas mas não menos importantes. Algo que iria me fazer feliz, e disso eu não teria dúvidas.

Ontem ele me disse firmemente que reencontrou o amor de verão na última semana, aquela que ele foi passar na praia. Que ele não a beijou, nem a tocou ou alimentou qualquer desejo de amá-la novamente porque sabia que teria que ir embora, mais cedo ou mais tarde, e isso não acabaria bem pra nenhum dos dois. Alguém iria sair magoado, ele disse. Disse de um jeito que me fez chorar por horas e me pegar pensando, novamente, em porque não sei o que é isso. Ele disse que viveu intensamente cada minuto único que teve com ela e que ela morreria logo. Todos morrem, falei no tom maia egoísta possível, sabendo da frieza que acabara de me enrolar o coração. Porque ele não havia vivido esses momentos intensos comigo também? O quão injusta a vida pode ser a te colocar pessoas como ele e te arrancar tão fácil como se tirasse pirulito de criança. Tão fácil que você nem vê quando ele te escapa dos dedos igual água. Não. Não o amo, quem diria eu amasse alguém, nem sequer sou apaixonada por ele. Mas o quero, não sei por qual motivo essa obsessão. Talvez seja porque é algo que não posso ter, e meu instinto idiota me puxa pra querer aquilo que não me convém, ou não há outro motivo explicável. Eu queria ser a garota prestes a morrer, só pra saber como é ser amada por alguém, mesmo depois de tempos, mesmo sem nem se tocar. Eu queria ser a garota prestes a morrer só pra viver intensamente com alguém a noite, na beira da praia e ter certeza que aquilo duraria a vida inteira, porque assim eu o faria. Eu queria, mas sou só a garota viva que viveu alguns momentos o mais intenso que podia, tentando, em vão, mostrar que podia amar, se a deixassem. Eu não quero saber das histórias de verão dele, ou dos amores, ou das ex, ou da vida. E desse vez nem é egoísmo, é porque a gente precisa disso, alguma vez. E bom, eu nunca tive. Eu nunca vou amá-lo, mas nunca vou esquecer em como ele transformou a mim e ao meu gelo particular. Nunca vou esquecer que ele foi o único que me fez pensar em se casar. Mas a vida não é nenhum amor de verão que dura pra sempre. Ela é um filme de comédia onde algo nunca da certo.


A caixa do Marlboro em cima da escrivaninha me chamava muito a atenção, mas até o maldito vício do cigarro me lembrava você. A maldita promessa que fiz: parar de fumar. No entanto, você não estava mais ali, só o teu cheiro em minhas roupas e tuas risadas doces ecoadas em cada canto das paredes, apenas. 

Alcancei a caixa e a abri. Um cigarro! Um maldito e miserável cigarro, apenas um! Eu esperava que ele saciasse minha dor de te ver indo, sem conseguir te puxar de volta. Abri a escrivaninha e peguei o esqueiro que, por merda de vida, você havia me dado. O olhei, o admirei e o virei de cabeça para baixo: nossas iniciais ali. Dei um tranco, voltando para o cigarro, fitando-o como se ele fosse a última coisa no mundo e como se eu o desejasse mais que tudo. 

Acendi e traguei. O gosto da dor desceu pela minha garganta e eu grunhi. Que merda de cigarro era aquele, tinha que ter gosto de menta e não esse gosto maldito de como se algo estivesse doendo no meu peito. Eu não podia escapar, algo estava doendo muito em meu peito, mas não era necessário lembrar. Me deitei na cama e dei mais uma tragada. O gosto foi adocicando e o cigarro foi saciando a dor, - ou assim eu queria e pensava - dei a terceira tragada e as gotas da chuva bateram na janela, molhando todo o chão. 

Levantei e corri para fecha-la. O vento gélido fez com que a dor voltasse e o cigarro se apagasse. Mas que merda! Deitei na cama rapidamente, indo em direção a escrivaninha, para pegar o esqueiro. Revirei a maldita escrivaninha toda e o esqueiro já não se encontrava mais lá. Intriguei-me, onde eu havia colocado aquela maldita lembrança? Era a única que eu havia deixado comigo, era a que eu mais gostava, tinha suas iniciais, e era de sua cor predileta, o maldito roxo. 

Debrucei-me para debaixo da cama. Roupas, sapatos, papéis e… papéis, voltei-me a olhar para um pequeno papel de cor verde que estava jogado em baixo da cama. Era pequeno e suas palavras eram de uma caligrafia linda, no entanto, acho que a pessoa estava tremula. Manchas arredondas se encontravam por toda parte do pequeno papelzinho. Coloquei o papel em cima da cama e voltei a olhar debaixo dela. Ah! Encontrei você seu maldito esqueiro filho da puta. 

Segurei ele em minhas mãos bem forte e voltei a acender o cigarro. Tentativa a toa. A porcaria do vício me deixara na mão, assim como você. Dei um soco no colchão e o pequeno papel voou, e então foi caindo, devagar, suave e de forma intrigante. O peguei e o abri de novo, agora prestando atenção nas palavras: “Engraçado não? Enquanto eu ria você chorava e me fazia rir entre as lágrimas também, e todo aquele maldito amor tão imperfeito acabou. Sinto sua falta, pena que não sentes a minha, não veio atrás, não pediu para que eu ficasse, apenas virou as costas e foi, me deixando apenas a saudade como lembrança.” 

Senti uma lágrima tentando escapar de meus olhos e a repreendi no mesmo instante. Se soubesse que sinto sua falta, mas a dor não deixa nem eu me levantar da cama… Se soubesse, se me atendesse, ah, se […] 


Enfim, eu o amo. Que ninguém saiba disso mas eu o amo desde a sétima série, eu acho. O amo mesmo com todas as namoradas que ele teve, mesmo com as declarações de "eu te amo" para outras mulheres. O amo ontem, hoje e talvez amarei amanhã. Ninguém sabe ou saberá, além do meu pequeno e frágil coração que se contorce a cada mulher nova que entra ou sai da vida dele.

O amo quando ele nem sabia direito quem eu era, a não ser meu nome ou minha forma física; digo: cabelo, olhos, altura, sabe? E eu, boba, tola, sempre soube quem ele era. A criança, o adolescente e agora homem, prestes a ser um grande empreendedor. Prestes a crescer em sua carreira tão sonhada e tão perfeita. 


Engraçado que o amei sem saber. Dentre todos esses anos, nem eu mesma tive a capacidade de me questionar o porquê que sempre senti tanto interesse nele. Sempre tentei entender porque sua pessoa me chamava tanto a atenção ou o porque ele sempre acabava entrando nos meus sonhos. 


Mesmo namorando, eu ainda o via com frequência. O olhava de forma carinhosa e desejava sua felicidade como ninguém desejaria. Sempre de longe sem me meter na sua vida, eu estava torcendo por ele como torço hoje e amanhã; creio que sou sua maior fã e isso não é nada estranho. O amo por ele ser tão difícil como pessoa mas tão bom também. 


Aprendi que o amo depois de tocá-lo por míseros momentos. Foram anos passados ao lado de alguém no qual eu sempre admirei e tive por perto nos meus instintos mais aguçados, mesmo sem que eu mesma percebesse. Foram poucos os dias em que eu deixei ele para lá e voltei a focar na minha frente - e esses foram os dias em que eu me relacionei com alguém, no caso dois, em duas fases da minha vida. Mas isso nunca cessou.


Que ninguém saiba - e jamais saberá - mas eu o amo. E interligado a ele eu estive por um período curto. Se não consegue entender é o tipo de amor platônico que se torna real a partir do momento que ele é consumado, de todas as formas possíveis e impossíveis existentes no romance que eu criei. Não! Não é tão platônico porque estava ao meu alcance, e sem que eu quisesse ou percebesse eu consegui aquilo que eu queria.


O amo por ele tentar gostar de mim, mesmo não tendo conseguido, ele se esforçou. Gostar de alguém tão cheia de maluquices e louca como eu, para ele, sei que foi um avanço enorme. O amo pelo pequeno mundo repleto de maravilhas simples que ele me deu; pelos sorvetes no domingo e pelo sexo na chuva. Por não desistir de sair mesmo no frio e por encher a cara do meu lado e "chapar" comigo. O amo por topar tudo sempre, e sempre ser meu amigo, estar disposto a me ajudar, mesmo que seja difícil ou falte tempo.


Eu o amo porque ele sempre foi meu garoto, a criança, o adolescente e o homem. Mas na verdade, nunca foi "o meu".

Cranela
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Autora





Cranela é a singela mistura de cravo e canela. Dizia Jorge Amado "Gabriela".

Gabriela Cadamuro, canceriana, 24 anos. O jornalismo é a minha vida e a escrita é mais ainda, o chocolate é a forma de adocicar-me enquanto o café é de amargar-me. Tudo aqui foi e é criado com a vontade do ler, escrever, conhecer e amar. Tem muito mais por ai. Beijo, Cranela.

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