Cranela ›› Blog por Gabriela Cadamuro

UMA MISTURA DE CRAVO E CANELA

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Ela estava deitada de barriga para baixo na beira da piscina. O detalhe era que a parte de cima do biquíni estava desamarrado pelo fato dela não gostar da marquinha nas costas. 
– Fica tão sexy essas marquinhas em você, não sei porque não deixa nas costas. 
– Ahm? Ah... porque ninguém vai ficar olhando minhas costas. Marquinha bonita é aqui, nos ombros, sacou? 
É, eu tinha sacado e muito bem. 
– Me lembrei que temos que comemorar nossa noite de núpcias, que ainda não fizemos. 
– Oi? – ela abaixou o óculos, arqueou a sobrancelha esquerda e levantou a cabeça.
– Núpcias, lembra? Ah, você se esqueceu que nós nos casamos ontem? Jura? Debaixo daquele luar maravilhoso de Fernando de Noronha e as estrelas das constelações admirando nós dois, banhados em álcool. – é, eu certamente sorria. Me dei por vencido.
– PELO AMOR DE DEUS, SLUTT! – opa, alguém esqueceu que tava sem biquíni e levantou – Merda! 
– Opa, Mag, ficou emocionada?
– Eu estava bêbada e foi só um beijo, um beijo bem ridículo por sinal.
– Não foi o que disse ontem enquanto me olhava perdidamente apaixonada, viu? – eu estava relaxado, tranquilo, tão sereno.
– Olha aqui, garoto – você pode imaginar que ela estava de pé na minha frente e apontava o dedo pra mim? Aquilo era tão sexy – eu não te olhei de forma alguma, na verdade eu estava bêbada, chapada e vi um homem lindo, que no caso não era você, como não tinha ninguém pra eu beijar, deixei você me beijar pra eu ter passa tempo, de resto, mais nada.
Eu sorri, levantei, tirei os óculos e olhei pra ela.
– Vou te beijar agora, te dou três segundos para correr.
Ela riu. 
Um
Dois
Beijei. Beijou, foi recíproco. Badatunts!
– Você beija muito bem.
– Você é um babaca, Slutt!
– Tá brava? 
– Vá a merda!
– Ok.
E a beijei de novo. E quem disse que ela recusou? Ah... o amor está no ar. 

Contos de um casal fora dos padrões

— Você tá com medo?
— Do filme?
— É.
— Bem, não.
— Tá apertando minha mão.
— Não gosto de filmes de terror, Maggie.
— Eu também não.
— Então porque estamos assistindo à isso?
— Você disse que assim eu ia chegar mais perto de você.
— Disse?
— Disse.
— Quando?
— Quando me ligou bêbado ontem a noite, dizendo que não conseguiu pegar nenhuma gostosa porque não parava de pensar em mim.
— Eu o quê?!
— Pois é.
— Não é verdade isso.
— Aposta?
— Tá apostando comigo?
— Tô, Slutt.
— Ok, se eu ganhar você vai ter que fazer um strip tease.
— E se eu ganhar, te prendo.
— Cadê?
— Aqui.
Slutt: “Porra, sua filha da mãe desgraçada gostosa, eu odeio você… Eu amo você, Mag. Eu não consigo ficar com nenhuma vadia desse lugar porque só penso em ti. Quero tu amanhã, na minha casa, as 19:00h, já peguei o filme e é de terror, pra ver se tu gruda em mim e não desgruda… Mag, você consegue ser mais gostosa que todas elas juntas.”

— Não.
— Sim.

— ...
— Tá amarrando muito forte.
— É pra você não escapar.
— Morder é covardia.
— Duvidar também.
— Quero te tocar.
— Não.
— Quero sexo.
— Quer?
— Sim.
— Faça por merecer.
— Me solta e eu faço.
— Merda… Pronto.
— Agora quem tá presa é você.
— E vai fazer o que?

— Tudo.

Contos de um casal fora dos padrões

Tinha dias que Marcia ia me visitar na biblioteca, lia todos os tipos de livros, era bem culta, tinha um vocabulário bem rico em palavras e eu sentia nela um enriquecimento literário. Ela dizia que desde que chegou em Londres, em 1985, não parara mais de ler e lia muitos livros em suas horas de almoço ou vagas enquanto estava em casa de bobeira. Como eu não sabia o que poderia dar de presente a ela, pensei em um de minha autoria, que não foi publicado ou sequer vendido. Eu havia escrito ele e deixado em minha prateleira pra quem sabe um dia ir atrás de alguma editora. Esse livro se passava no Brasil, era a historia de três homens que se perdera no mundo e não conseguira mais voltar pra casa, escrevi essa historia bêbado, fiz essa proeza e acho que por isso escondi esse livro mas resolvi dá-la de presente, mas com certeza fiz uma surpresinha antes.
Marcia, faz aniversario no dia 03 de abril e nesse dia ela iria trabalhar pois não poderia perder o dia por que precisava muito do dinheiro. Então acordei bem cedo, deixei Marcia dormindo em minha cama. Chamei-a para dormir em casa ontem pois eu havia tido uma ideia brilhante e que ela iria gostar. Corri até uma floricultura mais próxima, eram duas quadras da minha casa e comprei um buque de margaridas, aqui na Inglaterra é chamada de “Daisy”, por que tem uma expressão “day’s eye” que significa olhos do dia pois ela se fecha ao anoitecer e abre novamente quando o sol nasce. Comprei um buque bem bonito, bem florido e vivo, fui até a padaria mais próxima que era praticamente do lado da floricultura e comprei um bolinho, tipo um bolinho de caneca. Corri novamente ao apartamento e chequei se Marcia estava dormindo e estava, ufa, conseguirei preparar sua surpresa. Fui até a cama e dei-lhe um beijo e voltei a cozinha para preparar nosso café da manha. Queria tornar aquele dia inesquecível não só pra Marcia, preparei um café com torradas, como de costume e fui acorda-la, dei vários beijos e apertões esperando que ela acordasse e assim que ela sentiu o calor do meu corpo, me deu um sorriso e eu fui cantando parabéns com a bandeja com o café e mais um bolinho com uma vela em cima, Marcia esboçou uma cara muito engraçada, começou a rir sem parar e a gritar, disse que não esperava por isso e me puxou pra cama junto dela. Aprendi com meus anos de vida, que não há mais nada gratificante pra quem gosta muito de ler, que seria ganhar um livro. Fui até a minha estante, peguei o livro todo embrulhado, bem bonito e dei a ela. Quando Marcia abriu e viu que era um livro de minha autoria, deu um pulo em meu colo, me beijando sem parar, gritando alegremente, sem duvidas, isso está sendo o dia mais feliz de nossas vidas.
Lembrei-me disso assim que sentei no mesmo banco da praça que sentávamos antes, estou com meu cachorro, Bruce. Bruce era um Akita, branco, tem 5 anos de idade e em pé fica quase da minha altura e ele tem sido meu companheiro a muito tempo aqui na Inglaterra, encontrei ele em um salvamento que fiz em uma casa, quando trabalhei na policia daqui, coitado, estava sozinho no meio daquela casa pegando fogo. Mas, isso eu já conto.

Levei Marcia até o seu trabalho, todos lá também cantaram parabéns e deram um bolo de presente, ela estava muito feliz, eu via em seus olhos que esse dia, não esquecerá tão cedo. Eu fui dar uma volta na cidade, queria reservar uma mesa em algum restaurante muito bom de Londres pra fecharmos esse dia com chave de ouro. Fiz uma reserva no restaurante Marianne, onde a especiaria da casa era comida francesa, um lugar bem arrumado, acho que Marcia iria gostar.

Conto enviado pelo leitor João Pedro Sanches

Acordei, era mais ou menos umas 9 horas e o dia estava gelado mas com o sol forte lá fora e ainda bem, era domingo. E ao olhar ao meu lado, ver você dormindo num sono tão gostoso, parecia estar sorrindo, parecia, não sei, tão leve mas não quis te acordar e continuei ali te olhando durante uns quarenta minutos eu acho, até que você esboçou mexer os olhos como se estivesse acordando e ao abri-los, me deu um sorriso, um sorriso apaixonado, um sorriso de que estávamos na mesma sintonia, na mesma viagem. Preparei nosso café, você gostava de café bem quente com pouco açúcar porque dizia que dava mais energia para poder manter acordada e gostava de torradas não muito queimadas mas gostava de bem tostadinhas. Por incrível que pareça, ela me chamou pra tomarmos um banho juntos, e topei, com toda certeza do mundo e ficamos juntos de baixo da água, nós dois com frio e um aquecendo o outro automaticamente.
Saímos pra rua, fomos dar uma volta no parque pois nesse dia eu queria fazer tudo o que Marcia estivesse com vontade, ela disse que queria ir ao parque pois lá ela se sentia mais calma, conseguia energias pra poder continuar a trabalhar lá no bar, onde estava 3 anos já e que aos domingos não abria. Sentamos em um banco ali do parque, onde dava para ver crianças brincando de neve, era inverno na Inglaterra, fazia 1 grau, com máxima de 2 se o sol saísse. Ficamos lá até umas 17h, namoramos, conversamos, andamos bastante também, conheci bem melhor aquela que estava me deixando tão leve, estava me fazendo um bem tão grande que eu não queria deixar Marcia ir embora, queria tê-la pra sempre comigo. Mas foi dando 20h e o sol já não estava mais lá, a cidade já estava praticamente vazia e estava nós dois naquele parque vazio.
Estou aqui sentado, lembrando dos nossos momentos juntos. Acordei com uma saudade, não sei, uma saudade do seu rosto, dos seus olhos e do seu humor logo pela manhã, nossos cafés que tomávamos praticamente todos os dias juntos e as horas que passávamos ali, só deitado, eu acariciando seu cabelo, você abraçada ao meu corpo e me apertava. Me veio também a nossa última briga, última discussão que tivemos e você simplesmente foi embora para não voltar. Ontem fumei um baseado com a Fer, estava de bobeira e resolvi acender um e ficar em paz curtindo uma boa música e jogando conversa fora mas achei que havia me esquecido de você, do meu sentimento, é, pois é, não esqueci.
Bom, voltando. Levei Marcia à sua casa, ela morava com mais duas amigas, a Amanda e a Carol, também brasileiras, moravam na rua Southwark, nº 213. Elas estavam assistindo tv e Marcia me chamou para fazer companhia a elas, me sentei e ali fiquei durante uns 30 minutos e fui para minha casa. Nessa época eu não havia entrado na polícia inglesa ainda, existia só hipóteses em eu poder contribuir para a nação inglesa, eu havia conversado alguma coisa sobre com Marcia, mas acho que nem levou isso a sério.
Na semana seguinte, Marcia faria anos de vida, que maravilha, seria eu um presente que um ser supremo havia enviado a ela? Dei risada ao pensar isso, que viagem. Marcia faria 28 anos de idade e continuava a pessoa mais linda dessa face da terra, não encontrara outra pessoa mais linda que aqueles olhos brilhantes e um sorriso maravilhoso que me fez apaixonar sem pensar duas vezes. Voltei ao local de trabalho de minha amada no dia seguinte, ela me recebeu com um sorriso lindo e me serviu um café com torradas, meu café preferido. Conversamos um pouco, disse que queria conversar com ela sobre a hipótese de engrenar na polícia inglesa de Londres, ela me olhou com uma cara de incerteza, perguntou se era isso mesmo que eu queria e disse que apoiaria mesmo sabendo que não me via naquela profissão. Antes de engrenar na polícia, eu escrevia livros, trabalhava numa biblioteca que vendia também lps, são discos de vinis, eu sou apaixonado por coisas antigas e me encontro naquela loja e eu a visito praticamente toda semana.


Conto escrito pelo leitor João Pedro Sanches
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Autora





Cranela é a singela mistura de cravo e canela. Dizia Jorge Amado "Gabriela".

Gabriela Cadamuro, canceriana, 24 anos. O jornalismo é a minha vida e a escrita é mais ainda, o chocolate é a forma de adocicar-me enquanto o café é de amargar-me. Tudo aqui foi e é criado com a vontade do ler, escrever, conhecer e amar. Tem muito mais por ai. Beijo, Cranela.

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