Cranela ›› Blog por Gabriela Cadamuro

UMA MISTURA DE CRAVO E CANELA

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Olá, lembra de mim?! Pois é, acho que não. Não sei se você mudou de número mas hoje eu acordei pensando MUITO em você. Sua vida deve estar corrida, você deve estar trabalhando bastante, e estudando pra cacete. Não é de se admirar. Você sempre foi muito esforçada e dedicada com os seus objetivos. 

Você não deve ter meu contato salvo no seu celular. Talvez tenha até me bloqueado. Mas eu vou facilitar pra você caso não lembre da minha voz: Eu sou aquele cara que você conheceu no bar, em um dia que você saiu com os seus amigos pra se divertir, e eu peguei uma carona com você. Isso, aquele cara que você deixou na esquina da casa dele, e fingiu não saber o caminho de volta pra casa para ele poder te explicar o trajeto, enquanto você admirava o sorriso e o jeito como ele falava. Aquele cara que você saiu na próxima semana com ele, e vocês ficaram mais uma vez, e depois ficaram de novo, e de novo, e de novo. Aquele cara que se preocupava quando você estava triste, tentando te ajudar com os seus problemas. Aquele cara que compartilhava as conquistas dele com você. Talvez você ainda não tenha lembrado de mim.. Afinal, já se passou um bom tempo. Mas vou dar uma incrementada na história, ok? Lembra aquele dia em que fomos ao cinema, assistimos o Magico de Oz de mãos dadas, e eu dava risada das cenas do filme eras depois? É, eu sempre fui um tanto quanto "lento". Mas vamos lá... Eu fui o cara também que teve ciúmes, que brigou, que não acreditava nas coisas que você dizia, e sempre ouvia os outros ao invés de te ouvir. Sou aquele cara que não suportava te ver com outras pessoas, sabendo que as mesmas tinham segundas intenções pra cima de você. Sou aquele cara que emburrava fácil, e parava de falar com você quando eu estava chateado. 

Bom, acho que agora você lembrou de mim. Talvez você ainda tenha muita mágoa por conta do que passamos, mas eu quero dizer que eu sinto a sua falta. Sim, eu sinto a sua falta. Eu quero te ver, e espero uma resposta sua. Tomara que você possa me perdoar pelas coisas que te fiz, e que você possa enxergar o quanto eu realmente gosto de você. Estou com saudades, beijos, fique com Deus. 


DÊ PLAYER NA MÚSICA PARA LER

Ontem, pela manhã, eu andava distraído, chutando as pedrinhas que eu via no chão enquanto pensava no que eu poderia te dizer, já que toda essa nossa confusão tá aumentando. Foi ai que eu decidi pegar o celular e te ligar.

- Oi.
- Oi.
- Onde você tá? 
- Em casa.
- Pode me encontrar?
- Hoje não tenho tempo.

Desligou. Depois de um tempo eu acho que as pessoas vão ficando mais frias e, por mais que eu tentasse esquentar nosso "relacionamento" às avessas, você não parecia estar muito afim disso. Parecia gostar do gelo que te encobria e, não queria por nada, deixar que eu te derretesse. Fui pra casa tentando não pensar em você. Deixei pro dia seguinte a noite e te liguei.

- Pode hoje?
- Não sei se devo. Acho que precisamos conversar...
- Eu também quero conversar.
- Tudo bem.
- Vou te buscar. 
- Acho... tá, venha.

Eu iria pedi-la em namoro se ela não tivesse ido direto ao assunto que queria me dizer. Não houve lágrimas, mas sim uma voz acanhada de pena. Agora ela sentia pena de mim, por ter que terminar um relacionamento que nem havia começado. Seus olhos eram fundos e demonstravam como tudo aquilo era em vão, porque ela sabia que eu resistiria - ou achava que sabia.

- E o que você tinha para me dizer?
- Nada. Na verdade era o mesmo que você. Concordo que nós estamos avançando rápido e isso tem que acabar.
- Ah, sim! Que bom que está de acordo, gosto de você e assim ninguém sofre.
- Claro, ninguém. 

Deixei-a em casa e fui para a minha. Dentre todas as pessoas do mundo tinha que ser justo você? Sei que meu signo é bem culpado por todo esse sentimento desenfreado que me corrói aqui por dentro, mas eu não estou errado. Nunca vi virginiana como você, as pessoas que conheço não são como você. É como se seu jeito fosse extremista e eu? Meu Deus, eu sou tão molenga. 

Acho que passou umas duas semanas até que meu coração trouxa de canceriano  não aguentasse mais e ligasse pra ela de novo.

- Oi.
- O que foi?
- Fica? 
- A gente já conversou sobre isso, não é assim.
- Tô sentindo sua falta, fica, volta, sei lá, tenta de novo.
- Não.

Ficamos em silêncio. Eu chorava sem que ela ouvisse. Aquilo doía.

- Tá, tudo bem, pode ir embora se é isso que você quer e acha certo. Mas não volta, não ache que você vai encontrar mais que isso, porque não vai.
- Mais que isso o que?
- Mais que eu, meu amor, o tanto que me dei e doei a você.
- Tá me jogando praga?
- Pelo amor de Deus, não! Só quero que você pare de achar que a gente vive num mundo encantado. Não vivemos! E outra, eu não sou o teu passado, que fique bem claro.
- Mas não é mesmo e não vivemos, eu sei.
- Que bom que não me considera passado. Nem futuro. Quem dirá presente.
- Para, por favor.
- Vai, não vou te pedir mais pra ficar, já me humilhei muito. A
inda tá aqui porque? 
- Certo.
Desligou. Eu nunca mais a vi. Na verdade vi sim, de longe, nas festas, sem poder fazer mais nada além disso. Olhar. Eu ainda sinto saudade, falta. É como se enfiassem uma faquinha no meu peito e a girassem. Quando você não tá, tudo certo. Mas ai algo me lembra teu jeito e... Acho que preciso me reinventar. Ei Deus, rola uma mãozinha?

Cranela

Quando eu era criança, costumava ficar até as dez, onze da noite na rua. Todas as quase dez crianças que eram minhas vizinhas ficavam também. Nós jogávamos bets e andávamos de patins, rolava futebol (acho que gosto por conviver com muito homem) e esconde-esconde. Gato-mia (miau) era quase rotina. 

Algumas vezes quando eu saía da escola o tio da raspadinha estava lá. Eu comprava a maior e pedia para ele caprichar no leite condensado. Outra coisa legal da saída da escola era a tia dos doces que ficava lá na frente. A gente comprava doce pra vida inteira e nem sabia da onde vinha tanta moedinha. Juntava dinheiro só para isso, não havia mais nada pra se preocupar. Tinha um docinho que até hoje, caso eu ache, eu compro, ele era um pirulito envolvido em açúcar, ai você chupava e jogava no açúcar e chupava de novo. A gente nem tinha malícia antes.


Mas não havia nada melhor do que acordar, pegar meu cobertor e meu travesseiro e deitar no sofá. Naquela época não havia preocupações com contas, amigos, paixões, faculdade, trabalho...Ah! Era bom ser criança. Ver desenhos o dia inteiro e adorar ir pra escola. Brincar na hora do recreio e não ter medo de notas. Ser feliz quando o sorveteiro passa pela rua e sair gritando "Mãe! Mãe! Sorvete!". Qual era meu problema em querer crescer?


Crianças são ingênuas, portadoras de um amor profundo e puro. Detentoras da maior doçura existente. Criança não precisa se preocupar com trânsito, medos e outras coisas, mas geralmente se preocupam em ser adultas, querem crescer e tudo o mais. Se elas soubessem que os adultos sentem falta de ser criança. 


Talvez ninguém mais quisesse crescer. Quem dera eu ir para a "Terra do nunca" e ser criança eternamente. Sorte é do Peter Pan que nunca precisou crescer. 


Cranela
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Autora





Cranela é a singela mistura de cravo e canela. Dizia Jorge Amado "Gabriela".

Gabriela Cadamuro, canceriana, 24 anos. O jornalismo é a minha vida e a escrita é mais ainda, o chocolate é a forma de adocicar-me enquanto o café é de amargar-me. Tudo aqui foi e é criado com a vontade do ler, escrever, conhecer e amar. Tem muito mais por ai. Beijo, Cranela.

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